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A Síndrome da Inversão de Controle


sicthumb.gifPor muitos e muitos anos, desde 1983, venho jogando videogame. Quando era pequeno, molequinho mesmo, meus pais me deram, após muita petição, um maravilhoso Odyssey, que de cara não gostei, porque eu queria mesmo um Atari…

Por Profeta Yoshitake

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Dedicado a Cristiano Kolling

Por muitos e muitos anos, desde 1983, venho jogando videogame. Quando era pequeno, molequinho mesmo, meus pais me deram, após muita petição, um maravilhoso Odyssey, que de cara não gostei, porque eu queria mesmo um Atari, que a molecada toda possuía, gente de quem eu poderia emprestar cartuchos.

Aquilo foi sensacional, e cada cartucho, cada jogo, era aproveitado ao máximo, cada possibilidade era explorada. Eu tirava o suco dos jogos, e sempre queria novos jogos. A tristeza veio quando em 85 a Philips parou de fabricar consoles e cartuchos de Odyssey aquiem terras tupiniquins.

Em 87 conheci o Famicom, e em 89 a minha irmã ganhou um Dynavision II, que veio com o Yie Ar Kung-Fu apenas, jogo que ficou por meses e meses como o único do aparelho, e fiz o mesmo com ele, estourei o placar, me tornei invencível, dominei a essência do jogo. Assim aconteceu com os próximos jogos, Gyruss, Super Mario Bros., Tetris, Astyanax, e outros que foram chegando em casa em dias de natal ou aniversário. Outros ainda chegavam ao Dynavision por empréstimo de amigos altruístas, que me ensinaram que emprestar jogos para os amigos é formar parceiros de jogatina.

Bom, de lá pra cá houve várias fases na minha história de jogador e apreciador desta arte, desde ficar completamente afastado, durante o período em que esquci que tinha videogame, até recentemente, após a era Super NES, quando estava fazendo faculdade de engenharia e estagiando ao mesmo tempo e não sobrava tempo para jogar.

Após me formar, após começar a trabalhar e me sustentar, voltei a adquirir jogos de videogames antigos, como o NES e o Super NES, justamente para poder curtir aqueles jogaços que não tive oportunidade quando era criança ou adolescente,por falta de dinheiro. Fiquei muito feliz.

Além dos jogos antigos, comprei um Playstation, e passei a comprar ao menos 4 jogos piratas para o aparelho no Stand Center/Multishop/Promocenter. Era entrar em alguma espelunca
e adquirir jogos fantásticos como Final Fantay VII, Street Fighter Alpha 3 ou Parasite Eve. Nunca cheguei a me tornar mestre deles. Mais de 250 jogos piratas.

Comprar jogos e consoles passou a ser fonte de prazer, mais do que o próprio jogar, porque jogar mesmo era para as raras ocasiões em que eu estava em casa, não estava de ressaca, nem estava fazendo algum trabalho para a faculdade, ou com alguém que não gostasse de videogame. Mas enquanto o prazer do comprar pela internet, ou garimpar na Santa Ifigênia, e abrir pacotes chegados do Correio fluía em minhas veias, não notei o caminho que trilhava.

Recentemente notei que comprava jogos que não ia jogar, mas comprava porque a coleção pedia. Com Solstice americano loose, e mais um Solstice alemão completo, minha coleção precisava ainda de um Solstice de Famicom, lógico! Não bastavamos jogos piratas de Dreamcast e Playstation, eu precisava comprar os originais, porque a coleção pedia.

Sempre pensei que aquilo que antigamente chamava de coleção e hoje chamo de gameteca fosse algo sobre o qual eu possuía o comando, e usava dela para me satisfazer. Assim aconteceu até o ano passado, quando por opção preferi ficar sem trabalhar oficialmente, para cuidar de mim, me dar férias merecidas após trabalhar e estudar por 8 anos sem férias decentes (5 dias entre o natal e o Ano Novo não dá para chamar de férias).

Neste período de recolhimento, de reflexão, percebi que eu não mais usava os games da minha coleção para me divertir, ou para me saisfazer, mas pelo contrário, teratogênese surpreendente, minha então coleção passou a usar a mim como seu servo para adorá-la, para comprar jogos para ela, indiferente se eu precisava daquilo ou não. Não importava, ficaria bem um jogo como aquele na minha coleção.

A criatura se voltou contra seu criador, dominando-o. Síndrome da Inversão de Controle auto-diagnosticada.

Após me manter por um período isolado de Santa Ifigênia, Mercado Livre, eBay e após passar um tempo me sustentando com vendas de itens de minha ex-coleção e hoje gameteca, consegui superar esta síndrome, e hoje a gameteca serve a mim, seu dono, seu senhor, e não o contrário.

A Síndrome da Inversão de Controle me causou diversos males, dentre eles:
- Vida voltada ao consumismo, a trabalhar para comprar;
- Vaidade, orgulho por posses;
- Necessidade de ter, antes de ser;
- Medo;
- Dinheiro perdido em negociações mal-sucedidas com
vendedores mal-intencionados;
- Tempo enorme perdido em buscas pela internet pelo
“cálice sagrado”, cuja sacralidade limitava-se a encontrá-lo
e adquiri-lo;
- Uma quantidade absurda de caixas de papelão e gaveteiros
lotados de videogames e objetos relacionados entupindo o Covil do Profeta.

Hoje não digo que estou curado, porque segundo a NRC -Nintendo Rehabilitation Clinic , não há cura conhecida, e oportador deste mal precisa se manter em constante observação até o resto de sua vida. Mesmo assim, nesta triste perspectiva, minha vida melhorou bastante, agora que eu jogo os jogos que infestam minha casa, e o volume de mercadorias vem diminuindo pouco a pouco, porque além de vender o que sei que nunca vou aproveitar, e dar muitas coisas de presente para quem não tem como comprar ou para quem é fã extremo. Também adotei um pensamento, um verdadeiro caminho de libertação pessoal:

“Jogo vencido, jogo vendido”

Para finalizar, deixo registrado um verso retirado das
Escrituras Sagradas:

“Serei mais feliz, pois, se apenas jogar.
Não há felicidade no montante, e sim no jogante.”

(Escritura dos ENAs, Livro do Mendigo, v.3-4)

[Observação: a SIC é uma doença que ataca a todo o tipo de colecionadores, não apenas os gamemaníacos]

-Yoshitake



Adicionado à Base de Dados em Domingo, 23 de Março de 2008 por Mother Brain