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Entrevista com Ronaldo Testa, Editor da Revista Nintendo World


Entrevistamos Ronaldo Testa, editor da revista Nintendo World, a publicação oficial da Big N no país. Com muita alegria, fomos recebidos com a costumeira simpatia de um profissional que ama o que faz!

Com muita alegria, fomos recebidos com a costumeira simpatia de um profissional que ama o que faz e que se dispôs prontamente a abrir o jogo para a galera do NES Archive.

Ronaldo Testa
Ronaldo Testa

Nome completo: Ronaldo Carlini Testa
Idade: 27 anos
Profissão: Jornalista
Console predileto: Todos
Site pessoal [blog]: www.hardgamer.wordpress.com
E-mail: ronaldotesta@yahoo.com.br

NES Archive: Quando você começou a jogar videogame? O que o motivou a integrar uma equipe como a Ação Games para escrever sobre videogames?

Ronaldo Testa: Comecei a jogar videogame na época em que o Atari 2600 com frente de madeira era o maioral. De lá para cá, as pedras rolaram e eu me perdi em um emaranhado de consoles: NES, Super NES, Nintendo 64, 3DO, PSone, PlayStation 2, GB, GBC, GBA, GBA Sp e mais alguns clones de NES. O lance da Ação Games foi até um pouco curioso. Chegou uma época da minha vidaque eu percebi que ser jornalista de games era o que eu queria. Nesse tempo eu não fazia a mínima noção de como eu faria para adentrar uma redação de revista de game, mas a insistência foi uma peça chave.

Estávamos eu e um grande amigo, Humberto, procurando uma maneira de trabalhar com games. Foi quando surgiu a idéia de dar a cara a tapa. Começamos a ligar para todas as editoras que colocavam revistas de games na banca. Claro, não deu certo. Um tempo depois ele me disse que havia conseguido um freela na Ação Games. Fiquei um pouco desiludido por não ter conseguido também. Como todo jogador que acaba de terminar o colegial que não tem pais abonados, fui procurar emprego em outras áreas. Fui um feliz trabalhador do Mc Donald’s, ganhava até bem para a época 1,51 por hora, dava para comprar meus games.

Um certo dia fui convidado por ele para conhecer a redação. Voltei lá mais umas 9 ou 10 vezes, até qeu consegui meu primeiro freela: um review de uma página de Moto Racer, jogaço para PSone. Depois não larguei mais essa vida. Isso foi em novembro de 1998, na edição 126 (ou quase isso) da Ação Games.

NES Archive: Tem algum jogo de NES que marcou uma época pra você? Conte um pouco da sua relação com o pequeno Nintendo Entertainment System!

Testa: Tenho alguns jogos preferidos no NES, mas vou citar apenas dois, já que pretendo compensar a longa resposta da pergunta 1. rs… Só fui ter o NES original depois de grande. Meus primeiros contatos com jogos de NES foram no Hi-Top Game :).Mega Man 2 e Super Mario Bros. 3, sem dúvida. Mega Man por marcar uma parte em que eu me esforçava muito para jogar. Não tinha TV boa, nem colorida. Passava as tardes jogando em uma TV de 5″ polegados (aquelas com rádio) em preto e branco, e nem me incomodava com isso - claro que depois eu terminei trocentas vezes na TV colorida. E SMB 3 acho que nem preciso explicar, esse é o jogo dos próximos 3 séculos para mim.

NES Archive: Há muita nostalgia nos dias de hoje, e muitas pessoas como eu [Yoshitake] temos um misto de saudade com uma sensação de que os anos dourados do videogame foram o final da década de oitenta e início da década de 90, com o NES x Master System e depois Mega Drive x Super NES. O que você pensa sobre isso?

Testa: Já conversamos um tempo atrás sobre isso e minha opinião continua a mesma. Nessa época que você citou havia uma amadorismo por parte das empresas que não existe hoje. Era uma coisa agradável. Cada uma tinha suas armas e a disputa deixava você de cabel em pé, esperando pela próxima ação de cada uma delas. Essa sim foi uma briga boa. As pessoas se dividiam em dois times, Nintendo e SEGA. Infelizmente isso acabou e coisas como Mario & Sonic: Olimpic Games acabam acontecendo. Gostava muito dessa época, mas olho sempre para frente.

NES Archive: Testa, gostaria de saber a sua opinião sobre a possibilidade do Wii ser lançado oficialmente no Brasil, e o que nós, os gamers, os consumidores, os caras que mantêm a Big N de pé poderíamos fazer pra viabilizar o processo.

Testa: Isso não é uma tarefa nada fácil. Imagino que você esteja sereferindo a fabricação do Wii aqui no Brasil, já que de certa forma, temos o videogame oficial no país, trazido pela importadora Latamel. A parte reservada aos consumidores e jogadores é a de comprar produtos originais para ajudar a indústria. Só assim a Nintendo olhará para cá com bons olhos. Mas claro, enquanto os jogos forem vendidos por 300 reais, as pessoas vão pensar muitas vezes antes de comprar produtos originais. Essa não é a realidade do nosso país.

NES Archive: Testa, fale um pouco da sua carreira como jornalista de games, especialmente sobre os desafios. Escrever sobre videogames é brincadeira de criança ou é coisa séria? Vocês ficam o dia inteiro jogando videogame? Estou levantando a bola pra você desmistificar, soprar para longe as brumas que existem entre a realidade e a visão romantizada dos leitores e críticos de plantão.

Testa: Rapaz, sempre esperei por esse momento!!! Comecei a escrever em novembro de 98, como falei anteriormente. Claro, o meu primeiro desafio foi fazer aquele review do Moto Racer! Eu fiz e refiz umas 30 vezes e não consegui deixar no padrão. Depois vieram outros desafios de estratégias gigantes (quem tem a Ação Games com o detonado do Alundra, sabe), entrevistas, produção de fotos e outras coisas que não são “vistas” pelos leitores. Quando a Ação Games fechou, trabalhei em outras editoras como a Editora Europa (freela), e a Editora Digerati, até chegar aqui na FUTURO.

Uma notícia triste para quem acha que ser jornalista de games é uma coisa ultra divertida: depois que você começa a escrever para revistas de games, raramente pega um jogo para jogar e se divertir com ele, é sempre para trabalho. A escolha não é sua. Você pode ser escolhido pelo editor para avaliar um jogo de um gênero que você odeia e deve ser profissional. Das 12 horas que passo na redação, jogo em média 40 minutos. Esse tempo aumenta em dia de fazer review. Escrever sem jogar não rola. A coisa hoje em dia é muito séria. O amadorismo se foi (na maioria dos casos), e isso aproximou a indústria, que cobra uma resposta coerente para um review do seu jogo que recebeu nota média.

NES Archive: Como era trabalhar em uma revista como a Ação Games, que a molecada toda ficava perguntando pro dono da banca de jornais se ela já havia chegado? A redação era tão descontraída quanto a revista em si? As coisas mudaram muito de 10 anos para cá?

Testa: Trabalhar na Ação Games foi um sonho que se concretizou. Quando eu comprava a revista não imaginava que um dia faria parte do time. Depois que a Editora Azul foi comprada pela Abril, fomos para um prédio gigantesco lá na Av. Nações Unidas. Meu computador ficava na salinha de jogos, isolada da redação, por isso não convivi muito com o pessoal diretamente. Mas sempre aparecia por lá para encher o saco. Claro que as coisas mudaram, e cada tempo oferece suas dificuldades. As daquele tempo eram entrar em contato direto com as produtoras de jogos para conseguir informações exclusivas e também acompanhar todo o processo do fechamento que era bem diferente de hoje. Prefiro não entrar em detalhes aqui.

NES Archive: Como era a carga de trabalho na Ação Games, revista com conteúdo cem porcento nacional, em comparação com a Nintendo World, que publica material que vem direto da Nintendo Power americana? O trabalho na NW é mais mole por conta disso?

Testa: Na Ação Games existia uma espécie de rodízio de tarefas. Em um mês você escrevia reviews, no outro notícias, no outro a matéria sobre tal assunto, as dicas, os detonados e por aí vai. Acho que isso contribuiu para que todos os envolvidos na época ficassem “fortes” em todos os tipos de textos – tanto é que a maioria trabalha em publicações de games hoje em dia. Mesmo com a possibilidade de usar conteúdo da Nintendo Power, as coisas por aqui não são fáceis não. Editar a Nintendo World é o maior desafio de todos até agora. Parece simples pegar um artigo e adaptar, mas não é bem assim.

Rola um estudo sobre quais matérias devem ser adaptadas e geralmente isso não acontece - na edição 103 tivemos pouquíssimas coisas adaptadas. O problema é o paradigma espalhado por quem não está acompanhando o crescimento da NW, gente que entra no fórum de algum site, não lê o tópico inteiro e desfere comentários erroneos.

NES Archive: Muita gente critica a NW e também a EGM Brasil por serem irmãs de revistas gringas e publicarem conteúdo traduzido (adaptado seria o termo correto, não?). Eu gostaria de saber do próprio editor da NW qual é a verdade por trás dos fatos, e como acontece este processo de parceria e adaptação para um outro público dentro de um contexto completamente diferente.

Testa: Para começar, não adaptamos uma matéria só por que ela é bonita, engraçada ou chamativa. Só adaptamos algo quando realmente vale o espaço. Não há como negar que nossos irmãos da NP conseguem conteúdo muito mais fácil, conteúdo exclusivo que vale ser lido por nossos leitores, e que por isso é adaptado.

NES Archive: O que antes era uma diversão, uma paixão, agora é trabalho, responsabilidade e, inevitavelmente, burocracia e jogo de cintura. Como fica sua relação pessoal com o jogar videogame? É a mesma coisa deantes? Você já se flagrou “analisando” o jogo que estava curtindo apenas para tirar um lazer?

Testa: Jamais será a mesma coisa. Analisar um game que estou jogando para me divertir é uma coisa natural hoje em dia. Infelizmente percebo coisas que não gostaria. Sempre escolho um ou outro para jogar em casa, com minha esposa e filha de três anos, que já fala a frase “quero jogar videogame!”.

NES Archive: Um período marcante em qualquer redação é a chamada “semana de fechamento”, que é quando a galera tem que entregar as matérias feitas, o revisor tem que assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, e alguém precisa cobrar a galera, função ingrata pra caramba. Como é isso na Nintendo World? Vocês tiram de letra? Todo mundo vai embora às 17:00?

Testa: Independente da revista, essa semana nunca é tranquila – é assim desde 1998. No caso da Nintendo, quem distribui, faz a pauta, cobra material e manda e-mail mal educado, sou eu mesmo. Isso tem que ser feito religiosamente, já que atrasar o material na gráfica gera uma perda de grana e um precioso tempo em banca. Todo o pessoal aqui já sabe o que fazer, e mesmo assim, saímos no último horário, as 23:00.

NES Archive: Quando a televisão esteve na iminência de popularizar-se, muitos acreditavam que o rádio seria um meio de comunicação que entraria em desuso rapidamente, mas após a televisão já chegou a própria internet e cá estou eu ouvindo o rádio através da internet. A mesma internet, nopensamento de muitos, é como um meteoro que vem para extinguir todas as revistas de videogame, que seriam fósseis de uma era passada. O que você pensa sobre isso?

Testa: Acho bobeira. A internet tem seus encantos, mas as matérias impressas (por isso a importância de serem exclusivas) tem um lugar reservado na casa de todo mundo que gosta de ler a revista no papel. Essas pessoas nunca vão acabar. É como o rádio pela internet que você falou. É por ela que recebemos os materiais da Nintendo Power, pelo FTP exclusivo que temos lá. A internet não vai acabar com as revistas, eu prefiro muito mais ler a moda antiga do que se sentar na frente do monitor.

NES Archive: Ninguém fica anos à frente de uma revista por acaso, e você toca a NW a tempos, ou seja, é um cara que tem talento e competência pra coisa mesmo. Mas e se você não trabalhasse com games? Qual seria a sua área de atuação?

Testa: Me pergunto isso até hoje, mas não por falta de oportunidade e de experiência. Já fui “catador de bolinha de tenis”, Office Boy, atendente de Mc Donald’s, ajudante de serviços gerais, jardineiro, limpador depiscina ao lado do meu pai e vendedor de instrumentos musicais. Aindanão sei o que eu seria, mas se pudesse escolher, gostaria de trabalhar no escritório da Nintendo, em Redmond, de alguma coisa!

NES Archive: Bom, só fiz perguntas fáceis e triviais de responder até agora, então vou mandar uma ferradona pra sacanear! Manda um top 10 melhores games de todos os tempos, mas só de consoles caseiros!

Testa: Difícil. Muito Difícil. Sinceramente eu teria qeu pensar muito, por muito tempo, prefiro pular essa, mas pode ter certeza de que na lista teria Mega Man 2, Super Mario 3, Super Mario World, Top Gear, Enduro, Hero, Final Fantasy VII e outros mais novos.

NES Archive: Como funciona esta tão controversa relação entre os “caras da revista de videogame” e o público? Tem gente que te ama e gente que te odeia, e é impossível agradar a Nintendistas e Sonystas ao mesmo tempo! Como você lida com isso? Existe muito assédio? As pessoas te reconhecem na rua? Te pedem autógrafo?

Testa: As pessoas já me reconheceram em eventos de games, mas na rua não acontece, é raro. Eu acho muito legal essa história de bater um papo com os leitores, dá para saber o que eles esperam da revista, o que acharam e o que é mais importante manter. Fora isso tem as pessoas que acham que sou eu quem faz os jogos da Nintendo, daí rola uma explicação demorada. Mas acho muito legal, muito natural e gosto.

NES Archive: Espaço aberto pra mandar seu recado pra galera que acessa o NES Archive!

Testa: Continuem jogando e acreditando que o desafio não é impossível, mesmo quando se deparam com frases no estilo ‘Thank you Mario! But our princess is in another castle!´.

Ah, claro, deixo um abraço a todos que tiveram peciência para ler tudo isso!

NES Archive: A comunidade NES Archive é que agradece a você, Testa!



Adicionado à Base de Dados em Quarta-feira, 19 dAmerica/Los_Angeles Março dAmerica/Los_Angeles 2008 por Mother Brain