Colaboração de Marcelo Zorzanelli Ferri em 07/02/02
Ambientação: últimos anos da década de 80 - ou primeiros da década seguinte? Desculpe se não lembro as datas, entendam que foi há muito tempo e que teve uma adolescência no caminho. Não sei, não me importa, o porquê de algumas empresas brasileiras lançarem seus próprios Nintendinhos por aqui. Importa que o “plágio inconsciente” estava rolando solto. Dia sim, dia não a gente via propaganda de video-game novo, com design arrojado (que de tão “diferente” era quase sempre feio), com nome em inglês (geralmente não vinha a dizer coisa com coisa - Phantom System?!), e lá em baixo, nas letras miúdas da contravenção: COMPATÍVEL COM NES.
Eu, como quase toda criança na minha idade, tinha olhos, ouvidos e dedos nas mãos. Isso automaticamente fazia de mim um jogador de videogame. Não tive Atari, o que fazia com que eu parecesse uma aberração entre meus colegas; todos eram atarianos antes de qualquer outra coisa, e a onipresença do 2600 fazia a soberba subir às suas cabeças. Eu nem ligava. Jogava na casa dos primos.
Então um dia - lembro com nitidez - entrei na casa de um primo meu (não o do Atari) e vi um negócio diferente na televisão. “É o reflexo do sol ou esse video-game tá com mais ‘coisinhas’ na tela do que deveria?” perguntei a mim mesmo. Cheguei mais perto pra conferir e meus olhinhos foram confundidos por uma profusão de cores; devia ser uma foto ou coisa parecida. Olhei na mão do meu primo: uma arma. Meu Deus, que será isso?! - murmuro desconfiado. Uma pistola negra de uns trinta centímetros e ele fazendo mira na televisão. Sem me olhar, dispara umas sete vezes, matando três patos na tela. Querem saber do meu queixo? Estava no chão, bem ao lado de uma caixa de contornos arredondados, preta, com um cartucho cinza encaixado. Abaixei pra ler: Phantom System.
“O que que isso?”, perguntei pra ele. “É um video-game, sua anta”. Ah, um video-game. Sim, ele achou que me enganava. Eu sei que um video-game não tem esse formato arredondado, não tem cartucho cinza, a manete tem só um botão e uma alavanca vertical que a gente segura na palma da mão. Não é essa coisa esquisita aí, com três ou quatro botões, essa cruzinha; que dirá com essa pistola mágica.
Depois dos devidos esclarecimentos, joguei, e, finalmente, estava apaixonado. Depois do primeiro encontro vi a maravilha na casa de mais alguns dois colegas e um primo. Resultado: “Mãe, eu quero! Pelo amor de Deus, se a senhora me dá aquele video-game eu nunca mais peço nada, ah, mãe, vai, deixa! Vai!”. E foi.
Dentro de algumas semanas eu tinha nas minhas mãos um maravilhoso Turbo Game, apresentando os dois sistemas de pinos, controles arrojados (que nem o símbolo do Batman), botões turbo (conseqüentemente 4 botões no lay-out, o que o fazia parecer mais hi-tech), e uma fita - Tiger Heli, o mais bonito e charmoso jogo de helicópteros, uma coisa que eu ia esfregar na cara daquele primo que ficava se gabando dos detalhes de River Raid (maldição - ainda acordo no meio da noite tendo pesadelos com aquele FUEL).
A euforia da chegada do videogame foi tanta que eu dificilmente queria comer. Liguei-o na TV, dei uma lustrada no imponente CCE do deck e mandei bala. Liga, tela de start, começa a jogar… peraí. Esse negócio não tá em preto e branco não? Ih, será que é defeito? Ah, se for, vai ficar do jeito que tá. Tapa na televisão, em cima e em baixo, olha o fio, aperta o parafuso, a sintonia! Mexe na sintonia! Enfia o dedo lá, roda, opa, apareceu uma cor, tá firmando, ih, cagou tudo. Volta, volta… perfeito! Volta, logo, vamos jogar.
E lá fui eu, joguei muito, muito, muito tempo. Não parava pra nada. Minha mãe: menino, sai desse video-game que isso estraga a televisão! “Não, peraí mãe, tou quase zerando.” Tá quase o quê? “Zerando, mãe, depois eu te explico”. E continuava jogando, jogando, sem parar. Um dia, depois de jogar umas quatro horas, pensei: será que esse jogo não tem final? E não tinha mesmo. Tiger Heli, assim como River Raid (praga do meu primo), não tem final.
Bom, daí pra frente foi o que todo mundo viu. Fui apresentado ao Mario, ao Link, ao Double Dragon, ao Batman, ao Contra, e assim me viciei. Nunca, ouçam bem, nunca tive vontade de ter um Master System (Deus me perdoe de eu ter escrito esse nome). Sempre gostei de Nintendo, nunca mijei fora do penico, e sou feliz como naquela tarde em que, glorioso, rasgava o embrulho do Turbo Game.
Marcelo Zorzanelli Ferri
Publicado originalmente em 07/02/02, na versão anterior do NES Archive.
Adicionado à Base de Dados em Quarta-feira, 19 dAmerica/Los_Angeles Março dAmerica/Los_Angeles 2008 por Mother Brain


