Este é um texto um pouco longo, talvez cansativo, mas mostra o que eu realmente sinto em relação ao mundo atual de games. Talvez alguns veteranos se identifiquem com determinadas passagens, palavras e situações.
Contribuído por Giovani Cospefogo Faganello em 10/10/05

Cospefogo
Henrique - Qual a sua plataforma preferida? Por quê?
Pastor Cosme - A minha plataforma preferida sempre foi Nintendo. Joguei muito em plataforma Sega e Sony, mas sempre acabo voltando para a Nintendo. Talvez a Nintendo, por ter dominado nas décadas passadas, o mercado de games por muito tempo, sempre conseguiu trazer, em meio as centenas de lançamentos, jogos que se tornaram clássicos de uma geração. Também tem um pouco de nostalgia, pois tenho muito carinho por jogos que marcaram minha vida. Para mim, certos jogos são mais do que uma simples diversão na tela da televisão, são uma experiência de vida. Tudo que sei do idioma inglês e japonês hoje em dia aprendi por conta própria, jogando videogames.
Henrique - Você se interessa pela geração atual de consoles - ou a próxima? Se não, que motivo o leva a optar exclusivamente pelos consoles antigos?
Pastor Cosme - Em 1997 tive um Playstation 1 que acabei vendendo, em 1999 adquiri um Nintendo 64, que teve o mesmo fim. Depois disso passei um tempo da minha vida envolvido com outras coisas, música, faculdade, etc, mas retomei o interesse nos games alguns anos atrás. Havia prometido que nunca mais ia me envolver com as plataformas atuais, por que não eram tão cativantes quanto as plataformas clássicas. Como tudo na vida tem um porém, minha teoria foi por água abaixo quando conheci o Zelda Wind Waker, de Game Cube. E vi que a Nintendo continuava trazendo inovações da mesma forma que 20 anos atrás. Respondendo sua pergunta, eu fico com os consoles antigos em primeiro lugar, principalmente pela praticidade e sinceridade nos jogos. Mas confesso que encontro um pouco desse sentimento quando jogos alguns jogos do GameCube.
Henrique - O que te atraí no jogos antigos? Jogabilidade? Simplicidade? Tente explicar o porquê de seu gosto, levando em consideração os elementos presentes nos jogos atuais, e por quais motivos você se desinteressa por eles (caso a afirmação seja verdadeira).
Pastor Cosme - Vou tentar colocar em palavras… essa é uma pergunta um pouco complexa! Os jogos antigos faziam (e fazem ainda) uma coisa que a maioria dos jogos novos deixa a desejar… O uso da imaginação!
Os jogos antigos, através de sua resolução extremamente limitada, poucas cores simultâneas na tela e até mesmo pelos modestos efeitos sonoros faziam o jogador criar todo um mundo de fantasia dentro de sua cabeça! Meia dúzia de pixels na tela montavam um simples guerreiro medieval, e a gente olhava para ele e o enxergava armado com uma legendária espada mágica, escudo reluzindo ao sol, maravilhosa armadura de bronze e com uma expressão heróica no rosto. Tudo isso era criado na nossa imaginação. Quem nunca jogou Hero de Atari e imaginou aventuras incríveis dentro dos túneis sombrios daquela mina? Ou então os clássicos Castlevania na caça aos vampiros e Rockman enfrentando os robôs endiabrados do Dr.Wily?
Os jogos de hoje em dia são bonitos, atraentes, super trabalhados, mas já “cospem tudo pronto” na cara do jogador. Nenhum jogador imagina nada. Nenhuma fantasia é criada. Está tudo — JÁ FEITO, ali — com a última de todas as tecnologias.
Eu considero os jogos das plataformas antigas como LER UM LIVRO. Quando você lê um livro, você CRIA UM UNIVERSO em sua mente. Considero os jogos atuais como uma VERSÃO DE CINEMA de um livro clássico. Você apenas recebe, aceita as coisas, e não tem o trabalho de imaginar nada. Fizeram tudo por você, do jeito que acharam que deveria ser.
Para terminar, eu sempre procuro nunca assitir um clipe musical de uma canção que eu goste bastante, por que com certeza, se isso acontecer a imagem do filme - feita por alguém - vai ficar associada com a música em minha cabeça, fazendo-a perder toda a fantasia que eu havia criado. Agradeço a Deus pelo Pink Floyd nunca ter feito um filme com o disco Dark Side of the Moon, ou pela Nintendo nunca ter feito um filme com Zelda (pelo menos que eu conheça.)
Henrique - Já ouvi falar de pessoas que ficam enjoadas com jogos em 3D, principalmente os em 3a. pessoa, ou que não conseguem se acostumar com a complexidade de um jogo em três dimensões. Você acha que a tecnologia 3D é um problema ou uma solução? Ou acredita que o culpado por jogos complexos, que afugentam jogadores casuais é a jogabilidade, e não os gráficos em 3D?
Eu gosto bastante de jogos 3D, e me sinto bem quando estou jogando um deles. Eu acho que o principal motivo que afasta algumas pessoas desse tipo de jogo é a complexidade. Eu mesmo, de vez em quando, prefiro jogar no meu Famicom 8 Bits algo mais simples, rápido e divertido, como o clássico Super Mario Bros.
Eu acho que a tecnologia 3D é um problema e ao mesmo tempo uma solução. Se tornou um problema para alguns jogadores veteranos, mais velhos, que tem pouco tempo na “vida casual”, ás vezes por muito trabalho, família ou ambos. Muita gente gostaria de sentar, conectar um cartucho e apenas jogar, pra se divertir. Os jogos atuais são um problema para esse tipo de público — complexidade ao máximo, jogabilidade mirabolante, dúzias de botões, labirintos extremamente complexos e uma quantidade de informação exagerada acaba assutando - e afastando o jogador do mundo dos games.
Ao mesmo tempo, em contraste a esse tipo de público, temos os jogadores mais novos, e os veteranos “hardcore” - aqueles que tem uma paixão enorme pelo mundo dos games e que devoram cada novo lançamento e plataforma. Para esse tipo de público, os jogos 3D são o que há de melhor no mercado - quanto mais longo e complexo, mais diversão acaba trazendo.
Henrique - O colecionismo é apenas uma conseqüência de ser um “retrogamer” ou você considera isso um hobby? Quais motivos o levaram a organizar uma coleção?
Existem dois tipos de pessoas. As pessoas que sentam e enxergam a vida passar, e as que sentam e enxergam a vida passar colecionando alguma coisa.
Acredito que boa parte dos colecionadores fazem o que fazem por um certo amor à sua coleção. Eu considero um colecionador verdadeiro aquele que realmente sabe o que tem em mãos. Não é a quantidade ou a raridade de itens numa coleção que ditam o quão bom é o colecionador, e sim o seu envolvimento com ela. De nada basta ser milionário, e comprar em lotes gigantescos todos os cartuchos de Nintendo 8 Bits do mundo. Se você tiver dinheiro, você se torna um “colecionador-barato” em sete dias. Agora, para realmente chegar lá, você precisa de muito interesse, e principalmente amor ao que faz. Conheço colecionadores que se vangloriam por possuir um jogo de $100 dólares, ou então por ter gastado fortunas já com videogame. Fico triste com esse tipo de pessoa, pois estão privando outros de possuírem coisas que realmente gostam apenas para lotar suas prateleiras mortas e geladas.
O principal motivo que me levou a organizar uma coleção é a nostalgia que sinto em relação aos jogos antigos. Sei tudo sobre as peças de minha coleção de games, origem, datas de lançamento, e com certeza, joguei a maioria delas. Sou daquele tipo de pessoa que - ao gostar de uma música, não consegue deixar de pesquisar a origem da mesma, e todos os músicos envolvidos.
Outro motivo muito importante é a satisfação de poder jogar hoje, num console, um jogo que você sempre quis ver quando criança, que sonhava em ter, em conhecer, mas que parecia um sonho impossível. Hoje em dia, com a vida encaminhada, e com uma certa liberdade e a cabeça no lugar, acho que temos o direito de realizar certos sonhos infantis.
Henrique - Você joga os jogos de sua coleção?
Sim. Eu jogo muitos deles. Confesso que realmente não tenho como jogar todos, pois preciso dividir meu tempo com meu trabalho diário, família e demais afazeres. Entretanto posso assegurar para você que conheço todos eles, como a palma da minha mão, um a um.
Recentemente tenho intercalado os consoles — Jogo um jogo de cada, até o final, e pulo para outro console — Famicom, Super Famicom, Mega Drive, Game Cube, Gameboy Advance, e por aí vai…
Henrique - Você se sente excluído do mercado atual dos games, que visa a tecnologia e a plenitude gráfica? Consegue identificar alguns jogos atuais que te agrada tanto quanto seus jogos favoritos das gerações passadas? E por que o agrada?
Não me sinto excluído por que realmente não olho com essa visão para o mercado atual de games. Talvez se tivesse nos meus 16 anos, ainda no colégio, com tempo de sobra e nenhuma responsabilidade séria, eu até pensaria desse jeito, com tempo inifinto para jogar jogar e jogar, mas hoje não. Praticamente tenho tudo o que gostaria de ter quando criança. Como pode ver, sou uma pessoa extremamente nostálgica.
Um jogo que me cativou bastante é o Zelda Wind Waker de Game Cube. É um jogo poético (como disse o yoshitake). A Nintendo conseguiu trazer todo o sentimento, toda a magia de um jogo como o Zelda I, e Zelda II para o GameCube. É um dos jogos mais lindos que já vi em minha vida. Foi muito criticado pelos seus gráficos um tanto quanto infantis, mas tenho certeza, que muitos jogadores veteranos como eu, que começaram sua vida no Nintendo 8-Bits, olham diferente para o Wind Waker.
Henrique - Um jogo antigo pode trazer boas lembranças da nossa infância ou adolescência, assim como uma música que não ouvimos há muito tempo. Você acha que nostalgia é o principal motivo de você preferir os jogos antigos aos atuais?
Acredito que a nostalgia seja o combustível de qualquer colecionador de games ou ‘retrogamer’. Não consigo imaginar um garoto com seus 13 ou 14 anos interessado em jogar Castlevania I hoje em dia. O mundo mudou muito nesses últimos 15 anos. Se a mídia em geral não for violenta, sangrenta, ou com mulheres semi nuas a maioria dos jovens não se interessa. Novamente, como pode ver, sou uma pessoa nostálgica e um colecionador romântico.
Henrique - A Nintendo é conhecida por ser uma das poucas empresas atuais que visam a jogabilidade ao invés dos gráficos. Tenho notado que os “retrogamers” parecem se identificar com a Nintendo e suas plataformas (mesmo as atuais), devido seu lema de inovação. O que você acha de suas iniciativas em trazer a tona diversos clássicos das gerações passadas em plataformas atuais (GBA, Revolution), mantendo seus gráficos originais?
Eu acho isso excelente. Isso possibilita aos jogadores veteranos que matem um pouco da saudade e também aos mais novos que conheçam a origem daquela série famosa que hoje em dia já está totalmente imersa num mundo 3D. Espero de coração que a Nintendo realmente traga algo diferente com seu console Revolution — Embora sendo uma minoria, sei que existem pessoas muito cansadas dos jogos que são lançados diariamente para as paltaformas existentes - e também aqueles que gostarim muito de entrar no mundo dos games, mas acabam impossibilitados devido a gigante complexidade existente hoje em dia.
Giovani Cospefogo Faganello Santa Maria, RS Formado em Desenho Industrial pela UFSM
Adicionado à Base de Dados em Quarta-feira, 19 de Março de 2008 por Mother Brain


